Christopher Hitchens descomplica o que muitos complicam. No livro “Cartas a um Jovem Contestador”, Cia das Letras, 2006, o jornalista instiga a percepção da coragem, a autocrítica e principalmente a qualidade do que se pensa. Hitchens me faz lembrar o tamanho da pedra do meu sapato e provoca elegantemente a não tolerar o abuso de autoridade, a intimidação, o racismo, o pré-conceito, a opinião de massa inconsciente e para isso usa exemplos inspiradores: Rosa Parks, Oscar Wilde, Nelson Mandela, enfim, pessoas comuns que adotaram a prática do “como se”(trocadilho interessante num determinado ponto do livro) para expressar a insatisfação com algo que eles julgavam não ser o certo e de fato não era e com tais atitudes (as vezes simples e muitas vezes perigosa) provaram que a Natureza Humana pode até ser inalterada, pois é um dado como ele diz; porém isso não quer dizer, de qualquer modo, que o comportamento e a conduta humana sejam inalterados. Nesse ponto o escritor teve ainda o cuidado de acrescentar: “ Ainda assim, a civilização pode ampliar e por vezes ampliou, a tentação de agir de forma civilizada. Só aqueles que esperam transformar os seres humanos é que terminam por queimá-los, como refugo de um experimento fracassado.” Esse trecho exemplifica bem o porquê que Hitchens colecionava inimigos e porque ele fez com que eu me interessasse no seu trabalho, mas isso será assunto para outro post, depois que eu ler sua biografia, Hitch-22.
Citações surgem sutilmente no decorrer da obra, Hitchens lia muito e por isso o livro é recheado de referências literárias, onde destas pude tirar ao menos outros quatro escritores que farão parte da minha biblioteca, com certeza. Para escrever as cartas Hitchens cria um aluno imaginário e a partir daí o livro ganha forma em capítulos onde ele, de um jeito muito peculiar e convincente, convida o leitor a duvidar do óbvio, ou em outras palavras, nem sempre aceitar o que se é imposto mesmo que isso implique em alguns problemas no decurso, porque mesmo assim será recompensador.
Não existe nem uma fórmula, nem um enunciado com regras ou um grande “trunfo”. Longe disso, o livro escreve de forma muito simples para pessoas preocupadas com o que vem acontecendo. Para encerrar, uma provinha do que estou falando: “Não confie na compaixão; prefira a dignidade para você e para os outros.[...] Olhe todos os experts como se eles fossem mamíferos. Nunca seja um espectador da injustiça e da estupidez. Procure o debate ou a discussão por eles mesmos; o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio. Suspeite de seus próprios motivos e de todas as desculpas. Não viva para os outros; assim como você não espera que os outros vivam para você.”

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Pô, fiquei muito feliz de vocês terem indicado minha resenha! Abraço!
Muito bom, esse livro, como tudo do Hitchens, e muito legal seu comentário.
Aposto que você vai adorar as memórias do cara. A propósito, resenhei o Hitch-22, saca só: http://www.amalgama.blog.br/06/2011/em-defesa-do-camarada-hitchens/
Abs.
Pô, legal! Abraço e vlw pela visita!